Lembranças dos tempos em que jornais e revistas eram feitos nas saudosas oficinas tipográficas - Editor: Darci Fonseca

27 de jul. de 2015

ATAIGESP COMPLETA 30 ANOS DE SUA CRIAÇÃO


A Associação dos Trabalhadores Aposentados nas Indústrias Gráficas do Estado de São Paulo - ATAIGESP -  foi fundada no dia 27 de julho de 1985, comemorando, portanto, seu 30.º aniversário no dia de hoje. A edição de n.º 137 do informativo da associação publica uma resenha de todos os principais eventos da ATAIGESP, desde a data da sua criação, sendo lembrados ainda os trabalhadores gráficos que muito lutaram para que a associação se tornasse a realidade que é hoje. A matéria foi escrita por Carlos Alberto Pereira de Castro, o querido Castrinho, que desde aquela primeira reunião é um dos artífices da associação. Presidida atualmente por Roque Barbieri, a ATAIGESP recebe simpaticamente, em sua sede (no próprio Sindicato dos Trabalhadores Gráficos do Estado de São Paulo), todos os gráficos aposentados, seja para esclarecimentos, seja para matar a saudade dos bons tempos.

Nas fotos menores Roque Barbieri, Carlos Alberto Pereira de Castro, José Sacuchi
e Darci Calegari; na foto maior Domingos Medina, Alberto Mezzetti e Castro,
todos batalhadores importantes nos 30 anos de vida da ATAIGESP.

9 de jul. de 2015

JALECOS, UMA LEMBRANÇA DOS SAUDOSOS TEMPOS DAS LINOTIPOS



Uma empresa fornecer roupas de trabalho a seus funcionários é atualmente uma obrigação, mas nem sempre foi assim. Em áreas de produção em setores diversos da indústria, no século passado, a roupa de trabalho – jaleco, avental, macacão – era quase sempre responsabilidade do funcionário. Assim como a alimentação, transporte e assistência médica, o trabalhador é quem arcava com os gastos extras com as roupas de trabalho. Com o passar dos anos as empresas foram se organizando e fornecendo esse item indispensável aos seus empregados. De modo geral, dentro do ramo gráfico, linotipistas, ludlowlistas, paginadores e emendadores sujavam-se menos, necessitando, quando muito, um jaleco para proteção da roupa do dia-a-dia. Durante muitos anos os linotipistas trabalhavam usando camisas sociais e alguns não dispensavam sequer a gravata. Já o pessoal da manutenção, formado por mecânicos e limpadores de máquina, estes raramente escapavam de manter calça e camisa próprias para o trabalho, caso contrário não ganhariam o suficiente para substituir as roupas estragadas na oficina. Os macacões eram a melhor solução, mas nem todos gostavam de utilizá-los.

Gráficos do jornal 'A Noite', nos anos 50. Linotipistas, entre eles José Mezzetti,
elegantes em camisas sociais e engravatados.

Funcionário gráficos do Correio Paulistano nos anos 50, vendo-se apenas
um funcionário com um jaleco protetor.

Linotipistas da Folha de S. Paulo em plena
atividade e sem jalecos. Em destaque Carlos
Alberto Pereira de Castro, o Castrinho.
Quem passou por diversos jornais e pelas chamadas ‘casas de obras’ nas décadas de 50, 60, 70 e 80 do século passado certamente observou que algumas empresas eram mais organizadas que outras, preocupando-se com o fornecimento de trajes apropriados para o trabalho a seus funcionários. Assim era a Última Hora que fornecia jalecos cinzas. A Folha de S. Paulo, durante um curto período também forneceu um jaleco verde a cada funcionário, esquecendo-se da necessária reposição que não mais aconteceu. Pequenas linotipadoras como a Godoy não economizavam nesse aspecto que denotava, antes de tudo, organização. A confiança dos clientes aumentava quando observavam a área de produção de linotipadoras mais organizadas com seus funcionários ‘uniformizados’ com jalecos personalizados. Os jalecos protetores era fornecidos pelas empresas sem custo para os funcionários, cabendo a estes cuidar para que esses trajes causassem boa impressão. Mas sempre havia um ou outro que não procedia à lavagem semanal, utilizando o jaleco até que ele ‘se desmanchasse’ de tão sujo.

Visão geral da oficina da Linotipadora Godoy no período em que funcionou na Rua do Lavapés,
observando-se todos os funcionários atuando com seus jalecos. O funcionário que destoa
é Pedro Nepomuceno Duarte, chefe da oficina.


Dentre todas as empresas gráficas de São Paulo, uma se destacava pelo cuidado com os trajes dos funcionários: o jornal O Estado de S. Paulo. Quando o gráfico iniciava suas atividades naquela empresa recebia um jogo com dois jalecos compridos, com mangas igualmente compridas e confecionado em tecido da melhor qualidade. Um ano depois o funcionário recebia outros dois jalecos, havendo muitos casos de linotipistas que chegavam a fazer coleção de jalecos novos. Isso se explica porque a periodicidade de fornecimento era obedecida com rigor e nem sempre em correlação com a necessidade dos profissionais. Algo muito comum era gráficos mudarem de empresa e usarem, por exemplo, o jaleco do jornal O Estado de S. Paulo em linotipadoras e mesmo jornais que não forneciam esse tipo de proteção a seus empregados. Nas fotos que abrem esta postagem podem ser vistos jalecos utilizados por gráficos, dos saudosos tempos das linotipos.
À direita o famoso 'ex-libris' do distintivo dos
jalecos do Estadão.


Setor de linotipia da Empresa Folha da Manhã, nos anos 40 com os
linotipistas mais parecendo redatores com suas alvas camisas sociais.

Linotipia da Imprensa Oficial do Estado, ainda nos tempos da Rua da Glória,
notando-se que nenhum linotipista usava jaleco.

10 de jun. de 2015

EDGAR CARNEVALLI, UM LINOTIPISTA FORA-DE-SÉRIE


Acima Roger Vincent Fildimaque;
abaixo José Pereira de Andrade
Sobrinho, o 'Pereirinha' ao lado
de Henrique Alves Neto. 
Alguns linotipistas são lembrados por suas qualidades pessoais, outros por terem sido profissionais acima da média. Edgar Carnevalli é um daqueles que se encaixam nos dois quesitos, destacando-se tanto por seu caráter quanto por sua competência técnica. Trabalhando na Empresa Folha da Manhã em meados dos anos 60, Edgar foi matriculado pela ‘Folha’ na Escola Senai de Artes Gráficas. Durante o curso de Mecanotipista (esse era o nome dado pelo Senai ao aprendizado de linotipo), Edgar já chamava a atenção dos instrutores pela destreza com que executava os exercícios de composição. E não apenas os exercícios de textos corridos, mas também aqueles mais complexos como tabelas e balancetes. Concluídos os três semestres no Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) Edgar Carnevalli voltou à ‘Folha’, permanecendo algum tempo na equipe de manutenção das máquinas à espera de uma oportunidade para se efetivar como linotipista. Naqueles anos a Empresa Folha da Manhã havia se tornado uma verdadeira fábrica de jornais, com diversas redações editando “Folha de S. Paulo”, “Folha da Tarde”, “Notícias Populares”, “Última Hora”, “A Gazeta Esportiva” e ainda “Cidade de Santos”. Com a formação de uma nova turma para finalizar os tantos jornais noite adentro, Edgar Carnevalli, juntamente com outros jovens iniciantes na profissão, foi guindado à condição de linotipista antes mesmo de completar 20 anos de idade. Faziam parte dessa turma de novos operadores de linotipo Roger Vincent Fildimaque, Henrique Alves Neto, Gerson Coelho da Rocha, José Pereira de Andrade Sobrinho, Oswaldo Pecci, Kioshi Ono, Francisco dos Santos, Paulo Canil, Dorival de Almeida e ainda diversos outros jovens.

Jornais compostos e impressos na fábrica de jornais Empresa Folha da Manhã.

Waldo Barretto
Política salarial ilegal - Esperta mas ilegalmente a Empresa Folha da Manhã criou uma política salarial diferenciada para os novos linotipistas, a chamada ‘garotada da noite’. Estes receberiam por algum tempo pouco mais que a metade do que recebiam, pelo mesmo trabalho, os demais linotipistas. O arquiteto desse perverso plano foi o então diretor gráfico Waldo Barretto, respaldado pelo Departamento de Recursos Humanos e, sem dúvida, pela diretoria do Grupo Folhas. Como porta-voz da empresa Waldo Barretto prometeu ao novo grupo que em pouco tempo ‘acertaria’ os salários do novo grupo de linotipistas equiparando-os aos demais profissionais, isonomia que não se concretizou no prazo estipulado. Tal situação que afrontava a Consolidação das Leis Trabalhistas em seus artigos 4.º e 461 não foi aceita por Edgar Carnevalli que, por essa razão, acabou perdendo o emprego, sendo dispensado, mesmo tendo demonstrado sobejamente ser um profissional de grande futuro e utilidade para a empresa. Edgar ficou poucos dias desempregado pois a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo lhe abriu as portas e ganhou um linotipista que logo passou a impressionar chefes e colegas. O sistema de composição salarial na Imesp era o chamado ‘regime de produção’, ou seja, quanto mais o linotipista produzisse maior seria seu salário. A princípio Edgar Carnevalli assombrou a todos com sua produtividade, porém com o passar do tempo deixou de ser novidade o jovem, quieto e compenetrado linotipista liderar o mapa de produção, alternando essa liderança com ‘puxadores de linha’ mais calejados.

Edgar Carnevalli com Aquiles Feliciano
Afonso, outro estupendo linotipista.

Edgar já chegou a ser confundido com o
ator Tony Ramos e a foto explica...
Da Impesp para o DCI - O sistema de fotocomposição aterrorizava a categoria e pouco a pouco todos os grandes jornais adotavam a nova tecnologia. Iniciado o processo de implantação da fotocomposição na Imprensa Oficial do Estado, Edgar Carnevalli foi admitido no Diário Comércio e Indústria, o DCI, situado, assim como a Impesp, no bairro da Moóca. No DCI havia duas turmas de linotipistas, a ‘do dia’ e a turma ‘da noite’, ambas atuando sob o regime de produtividade. O volume de trabalho do período noturno era infinitamente maior e os linotipistas desse turno chegavam a produzir o dobro de linhas da média produzida pelo pequeno grupo que trabalhava durante o dia. No DCI havia verdadeiras ‘feras’, capazes de produzir perto de 150 mil linhas por mês, ou seja, alguma coisa ao redor de cinco mil linhas por jornada de trabalho. Entre os rapidíssimos linotipistas do DCI, líderes do mapa de produção, estavam José Pedro Vedovato, Antônio Cláudio A. do Vale, João Vinchy, Achiles Feliciano Afonso e Luiz Edgard Moro. Com o final do ano iniciava-se o período dos balanços, o que coincidiu com a chegada de Edgar Carnevalli àquele jornal especializado em economia, para reforçar a equipe diurna.

Recordes diários - No primeiro mês de trabalho a produção total de Edgar Carnevalli não chegou a chamar à atenção pois ele não chegara a cumprir integralmente o mês de trabalho, uma vez que começara na empresa em meados do mês. Porém nos 30 dias seguintes, quando o grupo de linotipistas do turno do dia adiantava os balanços que as grandes empresas eram obrigadas a publicar, Edgar Carnevalli mostrou sua impressionante capacidade de produção. Seu total diário de linhas produzidas superava a de muitos linotipistas do período noturno que incrédulos viam nos mapas os números espetaculares de Edgar Carnevalli, números que confirmavam a fama da qual ele veio precedido. Só restava mesmo tirar o chapéu e reconhecer ser Edgar Carnevalli um linotipista diferenciado, completo mesmo pois somava destreza com provas limpas. E não se tratava de composições com algumas dezenas de linhas e sim balanços que ocupavam toda uma página do jornal.

Mapa de produção da equipe de linotipistas do jornal Diário Comércio e Indústria.

Um Fora-de-Série - Tive o prazer e a honra de ser companheiro de trabalho de Edgar Carnevalli na ‘Folha’, no ‘Estadão’, no DCI e, já nos anos 80, no Diário Popular quando este passou a funcionar na Rua Major Quedinho. No ‘Estadão’ eu e Edgar Carnevalli operávamos a mesma linotipo, em turnos diferentes, fazendo centenas de anúncios de coluna e meia. E como dava gosto ver Carnevalli ‘dar rotativa’ em coluna e meia com a mesma facilidade de quem compunha em uma coluna. Por onde passou Carnevalli criou admiração pelo profissional fora de série que foi e pela sua integridade pessoal demonstrada no episódio da lesiva política salarial da ‘Folha’. Hoje, tantos anos distantes das barulhentas oficinas que há décadas deixaram de existir, pode-se afirmar que Edgar Carnevalli fez parte daquele grupo seleto de profissionais chamados de ‘Linotipistas Notáveis’.

Edgar Carnevalli ao lado de Darci Fonseca, Aquiles Feliciano Afonso, Roger Vincent
Fildimaque e Gerson Coelho da Rocha; atrás, de cabeleira branca Sérgio Pizzigatti.

Flagrante feito em encontro de gráficos veteranos organizado pelo 'Grego'
nascido no Egito Roger Vincent Fildimaque.


21 de mar. de 2015

DOMINGOS MEDINA, O PELÉ DA LINOTIPO


Conheci Domingos Medina na “Última Hora”, ou melhor, ouvia falar de Domingos Medina, pois ele fazia parte da turma de linotipistas do período noturno e eu era da turma que fazia a 2.ª edição daquele jornal. Eu (Darci Fonseca) trabalhava pela manhã e todos os demais linotipistas desse turno (Altair Martins, Francisco Sanches Matalana, Osmar Praxedes Peres, José Carlos Teodoro, Francisco Sanches Cote e Orovaldo Spoltore), e ainda os mecânicos Miguel Del Gaudio, Inocêncio Ramblas Filho e Manoel Leandro da Silva Filho, além dos paginadores, se referiam a Medina com enorme admiração. Todos ressaltavam a excelência de seu trabalho como operador de linotipo notavelmente rápido. Os quadros de produção do dia anterior apontavam invariavelmente o nome de Medina como o linotipista que mais linhas havia produzido e quase sempre com considerável vantagem sobre os demais profissionais. O regime salarial para os linotipistas na “Última Hora” era misto, com uma parte fixa e mais a produção, o que fazia de Medina o linotipista mais bem pago do jornal. E a equipe do período noturno tinha fantásticos ‘puxadores de linha’ muito rápidos, cujas máquinas praticamente não paravam enquanto o último original não fosse composto, fechando a primeira edição da U.H.

Álvaro Alves, um dos melhores
linotipistas da "Última Hora".
Equipe não homogênea - O ritmo frenético de composição dos originais fazia com que erros fossem inevitáveis, um ou outro por prova. E ‘emendar’ uma prova fazia com que o linotipista perdesse um precioso tempo. Domingos Medina se diferenciava dos demais porque chegava a atravessar uma semana inteira sem ter que corrigir uma única prova. Não sem razão Medina havia se transformado em uma lenda dentro do jornal e quando errava esse fato era até ‘comemorado’ pelos emendadores. Em tom de blague alguns deles diziam que se todos os linotipistas fossem como o ‘Mingo’, eles perderiam o emprego. E nem todos eram e nem poderiam ser, ainda que em outros jornais talvez tivessem o mesmo destaque que Medina possuía na “Última Hora”. Faziam parte da equipe noturna de linotipistas o gaúcho e rapidíssimo Álvaro Alves (geralmente o vice-campeão mensal de produção do jornal), Antônio Farias, Clemente Macchio, Gerson Zainaghi, Mário Grazzini, Ladislau Cantero Herrada, José Floriano Motta, Joaquim Antunes, Oswaldo Adelson Scarabotto, Aldo Moreno, Valentim Rigamont, Antônio Abraão, Léo Lipski, Mário Galvão de França e Dalwin Las Casas. 16 profissionais para as 16 máquinas de linotipo e, como não poderia deixar de ser, nem todos com igual competência.

Francisco Cantero Herrada, o 'Paquito'.
Comparação de provas - Francisco Cantero Herrada, o ‘Paquito’, era o Diretor Gráfico da “Última Hora” e sempre preocupado com a melhoria do rendimento da equipe que comandava, detectou que havia um linotipista que errava em excesso. Nenhuma das provas desse linotipista deixava de ter várias anotações do time de revisores do Conrado, Chefe da Revisão. Havia mesmo algumas provas que continham tantos erros que melhor seria recompor o original, gerando assim uma segunda prova, segunda revisão com perda irrecuperável de tempo para a produção da edição e de dinheiro para o linotipista. Certa noite a paciência de Paquito se esgotou e ele chamou o linotipista até a sua pequena sala envidraçada. Sobre a mesa do Diretor Gráfico havia dois maços de provas: um perfeito e outro que mais parecia um pacote de papéis amassados. No primeiro estavam mais de 20 provas de Domingos Medina, todas da jornada de trabalho anterior e todas limpas; no segundo as provas mais pareciam bordados feitos por mãos inábeis. Paquito ponderou com o linotipista que ele errava demais e que precisava melhorar seu rendimento produzindo provas com menos erros. E mostrou as provas de Medina como exemplo a ser seguido. O linotipista que era bonachão, alto e calvo, não se alterou com a bronca e respondeu ao Diretor Gráfico: “Mas Paquito, o Medina é o Pelé da Linotipo!” Desculpa esfarrapada, sem dúvida, mas que expressava uma inegável verdade pois o que Pelé fazia dentro de campo com arte e objetividade, Domingos Medina fazia todas as noites trabalhando em sua Linotipo Meteoro no jornal “Última Hora”.


1 de dez. de 2014

HAMILTON SARAIVA, PROFESSOR DA ESCOLA SENAI, GUARDA-CIVIL E ATOR DE FILMES DE MAZZAROPI


Odetto Guersoni
Quem foi aluno da Escola Senai de Artes Gráficas no final dos anos 50 e início dos anos 60 certamente se lembra dos dois professores de Desenho. Um deles era Odetto Guersoni, gravador, pintor, desenhista, ilustrador e escultor. As obras de Guersoni estão espalhadas por museus e acervos do mundo todo. O outro professor era também bastante eclético, acumulando atividades diversas entre si. Seu nome era Hamilton Saraiva e muitas vezes ministrava suas aulas trajando farda de guarda-civil pois ele era sargento dessa corporação de elite da cidade de São Paulo. Não confundir a antiga Guarda Civil de São Paulo com a atual Guarda Civil Metropolitana criada pelo então prefeito Jânio Quadros nos anos 80. Além dessas duas ocupações – Professor de Desenho da Escola Senai e Guarda-Civil – o Professor Hamilton tinha uma terceira atividade que ele não comentava, mas que era de conhecimento público. Pelo menos para quem assistia aos filmes de Amacio Mazzaropi.

"Chofer de Praça", primeiro dos seis filmes de Mazzaropi em que apareceu
o ator Hamilton Saraiva.

Os filmes de Mazzaropi eram lançados sempre no Cine Art-Palácio, na Avenida São João, com filas enormes para se divertir com o inesquecível caipira do cinema nacional. Foi em 1960, ao assistir “Jeca Tatu” naquele cinema, ao lado de alguns amigos, que surpreso reconheci meu professor Hamilton, escondido atrás de um bigode falso, num pequeno papel de dono de um armazém. Quando o encontrei no Senai ele confirmou que era ele mesmo e a descoberta logo se espalhou pela escola toda, o que em nada alterou o comportamento do Professor Hamilton. Sério, exigente e também paciente com os alunos, ver o Professor Hamilton sorrir era um fato raro. Mas depois da revelação ele sempre esboçava um sorriso de cumplicidade quando encontrava com os alunos. O grande sucesso de “Jeca Tatu”, maior ainda que as formidáveis bilheterias dos filmes anteriores, levou Mazzaropi a realizar um segundo filme em 1960. Outro personagem da cultura popular foi utilizado e o filme foi intitulado “As Aventuras de Pedro Malasartes”. Qualquer aluno do Senai, mesmo aqueles que não tinham aulas com o Professor Hamilton gostavam de contar que seu professor era artista de cinema.

Hamilton Saraiva contracenando com Mazzaropi em "Jeca Tatu". Entre as compras
feitas por Mazzaropi no armazém de Hamilton Saraiva pode ser visto um
frasco do Biotônico Fontoura, fortificante que praticamente todos que foram criança
na primeira metade do século passado um dia tomaram.

No ano seguinte, em 1961, o Professor Hamilton foi visto em “Zé do Periquito” e assistir aos filmes de Mazzaropi tornou-se obrigatório, não só para rir com os tipos criados pelo grande cômico, mas também para ver em cena o Professor Hamilton. Mesmo após haver concluído o curso no Senai os alunos formados em 1961 viram o talentoso professor em “O Vendedor de Linguiça” (1962) e em “Casinha Pequenina” (1963), este filme colorido. Seguiu-se então a decepção com os filmes seguintes de Mazzaropi nos quais não mais estava presente nosso Professor Hamilton. Sabe-se lá porque razão, ele não voltou mais a atuar nas produções da PAM (Produtora Amacio Mazzaropi), infelizmente.

Hamilton Saraiva com um bigode feito a mão em cenas de "Pedro Malasartes".

Os filmes de Mazzaropi nunca saíram de circulação, sendo reprisados constantemente pelos canais Brasil e Cultura, além de terem sido lançados em fitas VHS nos anos 80 e posteriormente em DVD. E cada exibição desses filmes é uma oportunidade para relembrar esse querido professor e por tabela de colegas daqueles memoráveis anos passados na Rua Muniz de Souza número 2, na Escola de Artes Gráficas do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – SENAI. Tempos dos instrutores de Linotipo Alfeu e Adão. Tempos dos professores Jacó, Célio, Zezinho; do diretor Carlos Moneta. Tempos de colegas como Roger Vincent Fildimaque, Edgar Carnevalli, João Simara Marins, José Hamilton Aissum, Décio Fogagnolli, Dilson Mezzetti Costa, Charlô da Cruz Leite, Raul de Marco, Wanderlei Vera Mandelli, Benjamim Fernandes... Melhor parar pois a lista é longa demais.

Bravo como era durante as aulas vemos Hamilton Saraiva
numa cena de "Zé do Periquito".

Novamente fardado vemos Hamilton Saraiva contracenando com Roberto Duval,
Maximira Figueiredo, David Netto, Mazzaropi e Carlos Garcia. Na outra foto
Duval, Garci, Mazzaropi e Hamilton Saraiva. O filme é "O Vendedor de Linguiça".

O primeiro filme em cores de Mazzaropi foi "Casinha pequenina", que teve a
última participação de Hamilton Saraiva em filmes do grande cômico.
O ator que aparece na foto com Hamilton é Luiz Gustavo, famoso protagonista
da novela "Beto Rockfeller" e até hoje atuando na Rede Globo..

26 de out. de 2014

“A MARCHA DO BORDERÔ” – AQUINO E SEU BOM HUMOR CONTRA O ATRASO NO PAGAMENTO


Em pequenas e mesmo grandes empresas do ramo gráfico nos anos 50, 60, 70 e 80 era comum atrasar o pagamento. Quando chegava o dia dez, não raro os patrões acenavam com um valezinho e pediam paciência aos funcionários, isto é, quando pediam pois em certas firmas o ‘anormal’ virava normalidade. Um dos campeões desse desrespeito era a empresa Diários Associados, pertencente a Assis Chateaubriand e que tinha Edmundo Monteiro como principal diretor. Os funcionários desse conglomerado de comunicação composto por jornais, emissoras de rádio e televisão tinham que ‘dançar miudinho’ e se virar para pagar suas contas. Três meses de atraso no salário era comum nos Diários Associados e para sobreviver muitos dos trabalhadores mantinham um segundo emprego no qual recebiam em dia. Inocêncio Ramblas Filho e Mário Dias, ambos da equipe de manutenção das máquinas Linotipo, eram dois exemplo de empregados do Diários Associados que viviam essa difícil situação.

À esquerda Assis Chateaubriand, o dono dos Diários Associados;
no centro Mário Dias e à direita Inocêncio Ramblas Filho, dois dos
muitos funcionários que ficavam meses sem receber naquela empresa.

Aquino
Porém nem todos os funcionários se desesperavam com a rotina de atrasos de pagamento e esse era o caso de um linotipista da Linotipadora Artestilo. Nessa pequena empresa de aproximadamente 25 funcionários, situada no bairro do Brás em São Paulo, nenhum gráfico contava receber seu salário no dia dez. Obviamente nenhum deles ficava satisfeito com as explicações dos patrões que inventavam os mais esdrúxulos argumentos para justificar os atrasos. O linotipista Aquino era um dos que ‘recebiam um limão dos patrões e com ele fazia uma limonada’. Aquino era apelidado de ‘Vô’ porque apesar de ter menos de 40 anos já era avô e talvez esse fato fosse uma das razões do seu constante bom humor. Aquino gostava de samba, tocava pandeiro e até compunha músicas.

Em qualquer roda de samba na Linotipadora Artestilo lá estava o 'Vô' (Aquino com
seu pandeiro, como na foto à esquerda em que está com Pìmentinha e Quarentinha.
na foto à direita Aquino entre o linotipista Profeta e o paginador Sola.

Em fevereiro de 1980 havia chegado o dia de pagamento, uma segunda-feira dia 11. O clima entre os funcionários da Linotipadora Artestilo era de tristeza pois já sabiam que o açougue, a quitanda, o armazém e o aluguel teriam de esperar alguns dias mais. No mês anterior os patrões haviam atribuído o atraso no pagamento ao ‘borderô do banco’. Novidade absoluta em termos de justificativa e claro que ninguém entendeu essa nova e criativa desculpa. Para dar um ar mais trágico ao novo atraso, chegava a semana de Carnaval e imperava na linotipadora um ambiente de velório. Hora do almoço, o pessoal reunido sussurrando homenagens às mães dos quatro patrões e eis então que chega, sorridente como sempre, o simpático Aquino. Com seu pandeiro e um pequeno papel na mão o ‘Vô’ foi dizendo: “Turma, fiz uma marcha para ser cantada no Carnaval...” Os sorrisos começaram a tomar conta dos rostos de todos pois sabia-se que Aquino era compositor bastante inspirado. A surpresa foi grande quando o alegre linotipista anunciou o título de sua marchinha carnavalesca: “A Marcha do Borderô”. Ouviu-se em uníssono uma estrondosa gargalhada que fez com que até os patrões colocassem as cabeças para fora do mezzanino onde funcionava o escritório. Como era hora de almoço os gráficos tinham liberdade até para cantar e Aquino, acompanhando-se ao pandeiro, mostrou “A Marcha do Borderô”:

           Atrasada em seus compromissos
          Consequência da situação ruim
          Como sofre a pequena empresa
          Para os empregados é o fim...

                     Desesperados
                    Os patrões dão um alô – ôô-ôô
                    O culpado disso tudo
                    É o borderô

           Leve um valinho
          Uma quina, um barão
          Dar tudo agora
          Nós não temos condição

          Dar tudo agora, nós não temos condição...

Desnecessário dizer que “A Marcha do Borderô” virou um sucesso na Artestilo e durante aquele Carnaval de 1980 não se cantava outra marchinha, a não ser a composta pelo Aquino.


Aquino era bom de samba, mas nem tanto bom de bola. Mesmo assim aparece na
foto como capitão entregando flores ao capitão adversário, Pimentinha; aparecem
ainda João Batista Rigo, Clemente Macchio e Valentim Rigamont. Na foto à
direita Aquino ao lado de Hortêncio Giribola e Liberato, por ocasião de partida
entre Linotipo X Paginação em congraçamento da Linotipadora Artestilo.

3 de set. de 2014

EM 1970, OS PRIMEIROS AUTOMÓVEIS DE TRÊS LINOTIPISTAS

Os linotipistas Eduardo José da Fonseca, José Darci Fonseca Lima e Gerson Coelho
da Rocha, contemplados com Volkswagen 1300 Zero Km. O primeiro automóvel de
Eduardo era bege, o de Darci branco lótus e o de Gerson azul, como os modelos
acima. O azul foi jocosamente apelidado de 'azul calcinha'.

A indústria automobilística brasileira começou a produzir veículos no final dos anos 50. Na década seguinte teve início de forma bastante lenta a popularização da aquisição de automóveis pelos trabalhadores. Em meados dos anos 60 foram criados consórcios para facilitar e estimular a aquisição desse bem que era já o maior sonho de consumo de operários especializados, entre eles os do ramo gráfico. Na Empresa Folha da Manhã, que editava entre outros jornais a ‘Folha de S. Paulo’, ‘Folha da Tarde’, ‘Última Hora’, ‘Notícias Populares’ e ‘Gazeta Esportiva’ foram criados grupos de consórcios administrados pela Mari Auto S.A., revendedora autorizada Volkswagen.


Na assembleia realizada pela Mari Auto S.A. no dia 20 de abril de 1970 com participação dos consorciados dos Grupos 6 e 8, foram entregues três automóveis Volkswagen. Os consorciados que, com os lances efetuados, acumularam na ocasião maior número de pontos, sendo contemplados, foram os gráficos Eduardo José da Fonseca, Moacyr Tang e José Darci Fonseca Lima. Todos os três concretizando o sonho do primeiro automóvel e, melhor ainda, com um automóvel Zero Quilômetro. A maior parte dos automóveis entregues pela Mari Auto S.A. eram destinados justamente para linotipistas e paginadores. Funcionários de outros setores, especialmente jornalistas, não escondiam uma ponta de inveja por esse fato. Da lista de 19 consorciados participantes que constam do resumo do Boletim acima publicado nada menos que 13 dos contemplados eram gráficos. São eles: José Carlos Melandi, João Marques de Oliveira, Gerson Zainagui, Gerson Coelho da Rocha, Waldo Barreto (três cotas), João Antônio Marques, Ladislau Cantero Herrada e Alexandre Pereira Aguiar (Pavão), além dos citados Eduardo José da Fonseca, Moacyr Tang e José Darci Fonseca Lima.

O Boletim expedido para os consorciados após a assembléia de 20/4/1970.


Na assembleia seguinte, realizada no mês de maio, foi contemplado, entre outros consorciados, o linotipista Gerson Coelho da Rocha. E valeu à pena esperar um mês a mais pois a Volkswagen modificou alguns itens do Fusca 1300, entre eles lanternas e parachoques, dando um visual mais moderno ao veículo. O modelo Volkswagen 1300, com quase dez mil automóveis produzidos e negociados, vendia naquele tempo mais unidades que as demais montadoras juntas. Além do Fusca 1300 foram ainda produzidos em fevereiro de 1970 modelos dos seguintes veículos: Aero-Willys, Corcel, Itamaraty, Alfa-Romeu, Esplanada, Karmann-Ghia, Galaxie, Opala, Puma e Variant, conforme demonstra a página da revista 'Quatro Rodas' publicada em maio de 1970. 

Página do jornal 'O Estado de S. Paulo' de 19/4/1970.

Capa da edição de maio de 1970 da revista 'Quatro Rodas'.

Página da edição de maio de 1970 da revista 'Quatro rodas' com a produção
da indústria automobilística brasileira

Nota fiscal expedida pela Mari Auto S.A. referente a veículo entregue
pelo consórcio da revendedora Volkswagen.