A Associação dos Trabalhadores Aposentados nas Indústrias Gráficas do Estado de São Paulo - ATAIGESP - foi fundada no dia 27 de julho de 1985, comemorando, portanto, seu 30.º aniversário no dia de hoje. A edição de n.º 137 do informativo da associação publica uma resenha de todos os principais eventos da ATAIGESP, desde a data da sua criação, sendo lembrados ainda os trabalhadores gráficos que muito lutaram para que a associação se tornasse a realidade que é hoje. A matéria foi escrita por Carlos Alberto Pereira de Castro, o querido Castrinho, que desde aquela primeira reunião é um dos artífices da associação. Presidida atualmente por Roque Barbieri, a ATAIGESP recebe simpaticamente, em sua sede (no próprio Sindicato dos Trabalhadores Gráficos do Estado de São Paulo), todos os gráficos aposentados, seja para esclarecimentos, seja para matar a saudade dos bons tempos.
Lembranças dos tempos em que jornais e revistas eram feitos nas saudosas oficinas tipográficas - Editor: Darci Fonseca
27 de jul. de 2015
9 de jul. de 2015
JALECOS, UMA LEMBRANÇA DOS SAUDOSOS TEMPOS DAS LINOTIPOS
Uma empresa fornecer roupas de trabalho
a seus funcionários é atualmente uma obrigação, mas nem sempre foi assim. Em
áreas de produção em setores diversos da indústria, no século passado, a roupa
de trabalho – jaleco, avental, macacão – era quase sempre responsabilidade do
funcionário. Assim como a alimentação, transporte e assistência médica, o
trabalhador é quem arcava com os gastos extras com as roupas de trabalho. Com o
passar dos anos as empresas foram se organizando e fornecendo esse item
indispensável aos seus empregados. De modo geral, dentro do ramo gráfico,
linotipistas, ludlowlistas, paginadores e emendadores sujavam-se menos,
necessitando, quando muito, um jaleco para proteção da roupa do dia-a-dia.
Durante muitos anos os linotipistas trabalhavam usando camisas sociais e alguns
não dispensavam sequer a gravata. Já o pessoal da manutenção, formado por
mecânicos e limpadores de máquina, estes raramente escapavam de manter calça e
camisa próprias para o trabalho, caso contrário não ganhariam o suficiente para substituir
as roupas estragadas na oficina. Os macacões eram a melhor solução, mas nem
todos gostavam de utilizá-los.
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| Gráficos do jornal 'A Noite', nos anos 50. Linotipistas, entre eles José Mezzetti, elegantes em camisas sociais e engravatados. |
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| Funcionário gráficos do Correio Paulistano nos anos 50, vendo-se apenas um funcionário com um jaleco protetor. |
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| Linotipistas da Folha de S. Paulo em plena atividade e sem jalecos. Em destaque Carlos Alberto Pereira de Castro, o Castrinho. |
Quem passou por diversos jornais e pelas
chamadas ‘casas de obras’ nas décadas de 50, 60, 70 e 80 do século passado
certamente observou que algumas empresas eram mais organizadas que outras,
preocupando-se com o fornecimento de trajes apropriados para o trabalho a seus
funcionários. Assim era a Última Hora que fornecia jalecos cinzas. A Folha de S. Paulo,
durante um curto período também forneceu um jaleco verde a cada funcionário,
esquecendo-se da necessária reposição que não mais aconteceu. Pequenas
linotipadoras como a Godoy não economizavam nesse aspecto que denotava, antes
de tudo, organização. A confiança dos clientes aumentava quando observavam a
área de produção de linotipadoras mais organizadas com seus funcionários ‘uniformizados’
com jalecos personalizados. Os jalecos protetores era fornecidos pelas empresas
sem custo para os funcionários, cabendo a estes cuidar para que esses trajes
causassem boa impressão. Mas sempre havia um ou outro que não procedia à
lavagem semanal, utilizando o jaleco até que ele ‘se desmanchasse’ de tão sujo.
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Dentre todas as empresas gráficas de São
Paulo, uma se destacava pelo cuidado com os trajes dos funcionários: o jornal O
Estado de S. Paulo. Quando o gráfico iniciava suas atividades naquela empresa
recebia um jogo com dois jalecos compridos, com mangas igualmente compridas e
confecionado em tecido da melhor qualidade. Um ano depois o funcionário recebia
outros dois jalecos, havendo muitos casos de linotipistas que chegavam a fazer
coleção de jalecos novos. Isso se explica porque a periodicidade de
fornecimento era obedecida com rigor e nem sempre em correlação com a
necessidade dos profissionais. Algo muito comum era gráficos mudarem de empresa
e usarem, por exemplo, o jaleco do jornal O Estado de S. Paulo em linotipadoras
e mesmo jornais que não forneciam esse tipo de proteção a seus empregados. Nas
fotos que abrem esta postagem podem ser vistos jalecos utilizados por
gráficos, dos saudosos tempos das linotipos.
À direita o famoso 'ex-libris' do distintivo dos
jalecos do Estadão.
À direita o famoso 'ex-libris' do distintivo dos
jalecos do Estadão.
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| Setor de linotipia da Empresa Folha da Manhã, nos anos 40 com os linotipistas mais parecendo redatores com suas alvas camisas sociais. |
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| Linotipia da Imprensa Oficial do Estado, ainda nos tempos da Rua da Glória, notando-se que nenhum linotipista usava jaleco. |
10 de jun. de 2015
EDGAR CARNEVALLI, UM LINOTIPISTA FORA-DE-SÉRIE
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| Acima Roger Vincent Fildimaque; abaixo José Pereira de Andrade Sobrinho, o 'Pereirinha' ao lado de Henrique Alves Neto. |
Alguns linotipistas são lembrados por
suas qualidades pessoais, outros por terem sido profissionais acima da média.
Edgar Carnevalli é um daqueles que se encaixam nos dois quesitos, destacando-se
tanto por seu caráter quanto por sua competência técnica. Trabalhando na
Empresa Folha da Manhã em meados dos anos 60, Edgar foi matriculado pela ‘Folha’
na Escola Senai de Artes Gráficas. Durante o curso de Mecanotipista (esse era o
nome dado pelo Senai ao aprendizado de linotipo), Edgar já chamava a atenção
dos instrutores pela destreza com que executava os exercícios de composição. E
não apenas os exercícios de textos corridos, mas também aqueles mais complexos
como tabelas e balancetes. Concluídos os três semestres no Senai (Serviço Nacional
de Aprendizagem Industrial) Edgar Carnevalli voltou à ‘Folha’, permanecendo
algum tempo na equipe de manutenção das máquinas à espera de uma oportunidade para se
efetivar como linotipista. Naqueles anos a Empresa Folha da Manhã havia se
tornado uma verdadeira fábrica de jornais, com diversas redações editando
“Folha de S. Paulo”, “Folha da Tarde”, “Notícias Populares”, “Última Hora”, “A
Gazeta Esportiva” e ainda “Cidade de Santos”. Com a formação de uma nova turma
para finalizar os tantos jornais noite adentro, Edgar Carnevalli, juntamente
com outros jovens iniciantes na profissão, foi guindado à condição de
linotipista antes mesmo de completar 20 anos de idade. Faziam parte dessa turma
de novos operadores de linotipo Roger Vincent Fildimaque, Henrique Alves Neto, Gerson Coelho
da Rocha, José Pereira de Andrade Sobrinho, Oswaldo Pecci, Kioshi Ono,
Francisco dos Santos, Paulo Canil, Dorival de Almeida e ainda diversos outros
jovens.
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| Jornais compostos e impressos na fábrica de jornais Empresa Folha da Manhã. |
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| Waldo Barretto |
Política
salarial ilegal - Esperta mas ilegalmente a Empresa
Folha da Manhã criou uma política salarial diferenciada para os novos
linotipistas, a chamada ‘garotada da noite’. Estes receberiam por algum tempo pouco mais que a metade do que recebiam, pelo mesmo trabalho, os demais linotipistas. O arquiteto desse perverso plano
foi o então diretor gráfico Waldo Barretto, respaldado pelo Departamento de
Recursos Humanos e, sem dúvida, pela diretoria do Grupo Folhas. Como porta-voz
da empresa Waldo Barretto prometeu ao novo grupo que em pouco tempo ‘acertaria’
os salários do novo grupo de linotipistas equiparando-os aos demais
profissionais, isonomia que não se concretizou no prazo estipulado. Tal situação
que afrontava a Consolidação das Leis Trabalhistas em seus artigos 4.º e 461
não foi aceita por Edgar Carnevalli que, por essa razão, acabou perdendo o
emprego, sendo dispensado, mesmo tendo demonstrado sobejamente ser um
profissional de grande futuro e utilidade para a empresa. Edgar ficou poucos
dias desempregado pois a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo lhe abriu as
portas e ganhou um linotipista que logo passou a impressionar chefes e colegas.
O sistema de composição salarial na Imesp era o chamado ‘regime de produção’,
ou seja, quanto mais o linotipista produzisse maior seria seu salário. A
princípio Edgar Carnevalli assombrou a todos com sua produtividade, porém com o
passar do tempo deixou de ser novidade o jovem, quieto e compenetrado linotipista liderar o mapa de
produção, alternando essa liderança com ‘puxadores de linha’ mais calejados.
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| Edgar Carnevalli com Aquiles Feliciano Afonso, outro estupendo linotipista. Edgar já chegou a ser confundido com o ator Tony Ramos e a foto explica... |
Da
Impesp para o DCI - O sistema de fotocomposição aterrorizava a categoria e pouco a pouco todos os grandes jornais adotavam a nova tecnologia. Iniciado o processo de implantação
da fotocomposição na Imprensa Oficial do Estado, Edgar Carnevalli foi admitido
no Diário Comércio e Indústria, o DCI, situado, assim como a Impesp, no bairro
da Moóca. No DCI havia duas turmas de linotipistas, a ‘do dia’ e a turma ‘da
noite’, ambas atuando sob o regime de produtividade. O volume de trabalho do
período noturno era infinitamente maior e os linotipistas desse turno chegavam
a produzir o dobro de linhas da média produzida pelo pequeno grupo que trabalhava
durante o dia. No DCI havia verdadeiras ‘feras’, capazes de produzir perto de
150 mil linhas por mês, ou seja, alguma coisa ao redor de cinco mil linhas por
jornada de trabalho. Entre os rapidíssimos linotipistas do DCI, líderes do mapa
de produção, estavam José Pedro Vedovato, Antônio Cláudio A. do Vale, João
Vinchy, Achiles Feliciano Afonso e Luiz Edgard Moro. Com o final do ano
iniciava-se o período dos balanços, o que coincidiu com a chegada de Edgar Carnevalli
àquele jornal especializado em economia, para reforçar a equipe diurna.
Recordes
diários - No primeiro mês de trabalho a produção total de Edgar
Carnevalli não chegou a chamar à atenção pois ele não chegara a cumprir
integralmente o mês de trabalho, uma vez que começara na empresa em meados do
mês. Porém nos 30 dias seguintes, quando o grupo de linotipistas do turno do dia
adiantava os balanços que as grandes empresas eram obrigadas a publicar, Edgar
Carnevalli mostrou sua impressionante capacidade de produção. Seu total diário de linhas produzidas superava a de muitos linotipistas do período noturno que incrédulos viam nos mapas os números espetaculares de Edgar Carnevalli, números que confirmavam a fama da
qual ele veio precedido. Só restava mesmo tirar o chapéu e reconhecer ser Edgar
Carnevalli um linotipista diferenciado, completo mesmo pois somava destreza com
provas limpas. E não se tratava de composições com algumas dezenas de linhas e
sim balanços que ocupavam toda uma página do jornal.
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| Mapa de produção da equipe de linotipistas do jornal Diário Comércio e Indústria. |
Um
Fora-de-Série - Tive o prazer e a honra de ser companheiro de trabalho de
Edgar Carnevalli na ‘Folha’, no ‘Estadão’, no DCI e, já nos anos 80, no Diário Popular quando este passou a funcionar na Rua Major Quedinho. No ‘Estadão’ eu e Edgar Carnevalli operávamos a mesma linotipo, em turnos diferentes, fazendo centenas de anúncios de coluna e meia. E como dava gosto ver Carnevalli ‘dar rotativa’ em coluna e meia com a mesma facilidade de quem compunha
em uma coluna. Por onde passou Carnevalli criou admiração pelo profissional
fora de série que foi e pela sua integridade pessoal demonstrada no episódio da
lesiva política salarial da ‘Folha’. Hoje, tantos anos distantes das
barulhentas oficinas que há décadas deixaram de existir, pode-se afirmar que
Edgar Carnevalli fez parte daquele grupo seleto de profissionais chamados de ‘Linotipistas
Notáveis’.
21 de mar. de 2015
DOMINGOS MEDINA, O PELÉ DA LINOTIPO
Conheci Domingos Medina na “Última
Hora”, ou melhor, ouvia falar de Domingos Medina, pois ele fazia parte da turma
de linotipistas do período noturno e eu era da turma que fazia a 2.ª edição
daquele jornal. Eu (Darci Fonseca) trabalhava pela manhã e todos os demais linotipistas desse
turno (Altair Martins, Francisco Sanches Matalana, Osmar Praxedes Peres, José
Carlos Teodoro, Francisco Sanches Cote e Orovaldo Spoltore), e ainda os mecânicos Miguel Del Gaudio, Inocêncio Ramblas Filho e Manoel Leandro da Silva Filho, além dos paginadores, se referiam a Medina com enorme admiração. Todos ressaltavam a excelência de seu trabalho como operador de linotipo notavelmente rápido. Os quadros de produção do dia anterior apontavam invariavelmente o nome de
Medina como o linotipista que mais linhas havia produzido e quase sempre com
considerável vantagem sobre os demais profissionais. O regime salarial para os
linotipistas na “Última Hora” era misto, com uma parte fixa e mais a produção,
o que fazia de Medina o linotipista mais bem pago do jornal. E a equipe do
período noturno tinha fantásticos ‘puxadores de linha’ muito rápidos, cujas
máquinas praticamente não paravam enquanto o último original não fosse
composto, fechando a primeira edição da U.H.
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| Álvaro Alves, um dos melhores linotipistas da "Última Hora". |
Equipe
não homogênea - O ritmo frenético de composição dos originais fazia com
que erros fossem inevitáveis, um ou outro por prova. E ‘emendar’ uma prova
fazia com que o linotipista perdesse um precioso tempo. Domingos Medina se diferenciava
dos demais porque chegava a atravessar uma semana inteira sem ter que corrigir
uma única prova. Não sem razão Medina havia se transformado em uma lenda dentro
do jornal e quando errava esse fato era até ‘comemorado’ pelos emendadores. Em
tom de blague alguns deles diziam que se todos os linotipistas fossem como o
‘Mingo’, eles perderiam o emprego. E nem todos eram e nem poderiam ser, ainda
que em outros jornais talvez tivessem o mesmo destaque que Medina possuía na
“Última Hora”. Faziam parte da equipe noturna de linotipistas o gaúcho e
rapidíssimo Álvaro Alves (geralmente o vice-campeão mensal de produção do
jornal), Antônio Farias, Clemente Macchio, Gerson Zainaghi, Mário Grazzini,
Ladislau Cantero Herrada, José Floriano Motta, Joaquim Antunes, Oswaldo Adelson
Scarabotto, Aldo Moreno, Valentim Rigamont, Antônio Abraão, Léo Lipski, Mário
Galvão de França e Dalwin Las Casas. 16 profissionais para as 16 máquinas de
linotipo e, como não poderia deixar de ser, nem todos com igual competência.
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| Francisco Cantero Herrada, o 'Paquito'. |
Comparação
de provas - Francisco Cantero Herrada, o ‘Paquito’, era o Diretor
Gráfico da “Última Hora” e sempre preocupado com a melhoria do rendimento da
equipe que comandava, detectou que havia um linotipista que errava em excesso.
Nenhuma das provas desse linotipista deixava de ter várias anotações do time de
revisores do Conrado, Chefe da Revisão. Havia mesmo algumas provas que
continham tantos erros que melhor seria recompor o original, gerando assim uma
segunda prova, segunda revisão com perda irrecuperável de tempo para a produção
da edição e de dinheiro para o linotipista. Certa noite a paciência de Paquito
se esgotou e ele chamou o linotipista até a sua pequena sala envidraçada. Sobre
a mesa do Diretor Gráfico havia dois maços de provas: um perfeito e outro que
mais parecia um pacote de papéis amassados. No primeiro estavam mais de 20
provas de Domingos Medina, todas da jornada de trabalho anterior e todas
limpas; no segundo as provas mais pareciam bordados feitos por mãos inábeis.
Paquito ponderou com o linotipista que ele errava demais e que precisava
melhorar seu rendimento produzindo provas com menos erros. E mostrou as provas
de Medina como exemplo a ser seguido. O linotipista que era bonachão, alto e
calvo, não se alterou com a bronca e respondeu ao Diretor Gráfico: “Mas Paquito, o Medina é o Pelé da
Linotipo!” Desculpa esfarrapada, sem dúvida, mas que expressava uma
inegável verdade pois o que Pelé fazia dentro de campo com arte e objetividade,
Domingos Medina fazia todas as noites trabalhando em sua Linotipo Meteoro no
jornal “Última Hora”.
1 de dez. de 2014
HAMILTON SARAIVA, PROFESSOR DA ESCOLA SENAI, GUARDA-CIVIL E ATOR DE FILMES DE MAZZAROPI
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| Odetto Guersoni |
Quem foi
aluno da Escola Senai de Artes Gráficas no final dos anos 50 e início dos anos
60 certamente se lembra dos dois professores de Desenho. Um deles era Odetto Guersoni,
gravador, pintor, desenhista, ilustrador e escultor. As obras de Guersoni estão
espalhadas por museus e acervos do mundo todo. O outro professor era também
bastante eclético, acumulando atividades diversas entre si. Seu nome era
Hamilton Saraiva e muitas vezes ministrava suas aulas trajando farda de
guarda-civil pois ele era sargento dessa corporação de elite da cidade de São
Paulo. Não confundir a antiga Guarda Civil de São Paulo com a atual Guarda
Civil Metropolitana criada pelo então prefeito Jânio Quadros nos anos 80. Além
dessas duas ocupações – Professor de Desenho da Escola Senai e Guarda-Civil – o
Professor Hamilton tinha uma terceira atividade que ele não comentava, mas que
era de conhecimento público. Pelo menos para quem assistia aos filmes de Amacio
Mazzaropi.
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| "Chofer de Praça", primeiro dos seis filmes de Mazzaropi em que apareceu o ator Hamilton Saraiva. |
Os filmes de
Mazzaropi eram lançados sempre no Cine Art-Palácio, na Avenida São João, com
filas enormes para se divertir com o inesquecível caipira do cinema nacional.
Foi em 1960, ao assistir “Jeca Tatu” naquele cinema, ao lado de alguns amigos,
que surpreso reconheci meu professor Hamilton, escondido atrás de um bigode
falso, num pequeno papel de dono de um armazém. Quando o encontrei no Senai ele
confirmou que era ele mesmo e a descoberta logo se espalhou pela escola toda, o
que em nada alterou o comportamento do Professor Hamilton. Sério, exigente e
também paciente com os alunos, ver o Professor Hamilton sorrir era um fato
raro. Mas depois da revelação ele sempre esboçava um sorriso de cumplicidade
quando encontrava com os alunos. O grande sucesso de “Jeca Tatu”, maior ainda
que as formidáveis bilheterias dos filmes anteriores, levou Mazzaropi a
realizar um segundo filme em 1960. Outro personagem da cultura popular foi
utilizado e o filme foi intitulado “As Aventuras de Pedro Malasartes”. Qualquer
aluno do Senai, mesmo aqueles que não tinham aulas com o Professor Hamilton
gostavam de contar que seu professor era artista de cinema.
No ano
seguinte, em 1961, o Professor Hamilton foi visto em “Zé do Periquito” e
assistir aos filmes de Mazzaropi tornou-se obrigatório, não só para rir com os
tipos criados pelo grande cômico, mas também para ver em cena o Professor
Hamilton. Mesmo após haver concluído o curso no Senai os alunos formados em
1961 viram o talentoso professor em “O Vendedor de Linguiça” (1962) e em
“Casinha Pequenina” (1963), este filme colorido. Seguiu-se então a decepção com
os filmes seguintes de Mazzaropi nos quais não mais estava presente nosso
Professor Hamilton. Sabe-se lá porque razão, ele não voltou mais a atuar nas
produções da PAM (Produtora Amacio Mazzaropi), infelizmente.
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| Hamilton Saraiva com um bigode feito a mão em cenas de "Pedro Malasartes". |
Os filmes de
Mazzaropi nunca saíram de circulação, sendo reprisados constantemente pelos canais
Brasil e Cultura, além de terem sido lançados em fitas VHS nos anos 80 e
posteriormente em DVD. E cada exibição desses filmes é uma oportunidade para
relembrar esse querido professor e por tabela de colegas daqueles memoráveis
anos passados na Rua Muniz de Souza número 2, na Escola de Artes Gráficas do
Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – SENAI. Tempos dos instrutores de
Linotipo Alfeu e Adão. Tempos dos professores Jacó, Célio, Zezinho; do diretor
Carlos Moneta. Tempos de colegas como Roger Vincent Fildimaque, Edgar
Carnevalli, João Simara Marins, José Hamilton Aissum, Décio Fogagnolli, Dilson
Mezzetti Costa, Charlô da Cruz Leite, Raul de Marco, Wanderlei Vera Mandelli,
Benjamim Fernandes... Melhor parar pois a lista é longa demais.
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| Bravo como era durante as aulas vemos Hamilton Saraiva numa cena de "Zé do Periquito". |
26 de out. de 2014
“A MARCHA DO BORDERÔ” – AQUINO E SEU BOM HUMOR CONTRA O ATRASO NO PAGAMENTO
Em pequenas e mesmo grandes empresas do
ramo gráfico nos anos 50, 60, 70 e 80 era comum atrasar o pagamento. Quando
chegava o dia dez, não raro os patrões acenavam com um valezinho e pediam paciência
aos funcionários, isto é, quando pediam pois em certas firmas o ‘anormal’
virava normalidade. Um dos campeões desse desrespeito era a empresa Diários Associados,
pertencente a Assis Chateaubriand e que tinha Edmundo Monteiro como principal
diretor. Os funcionários desse conglomerado de comunicação composto por jornais, emissoras de rádio e televisão
tinham que ‘dançar miudinho’ e se virar para pagar suas contas. Três meses de
atraso no salário era comum nos Diários Associados e para sobreviver muitos
dos trabalhadores mantinham um segundo emprego no qual recebiam em dia. Inocêncio
Ramblas Filho e Mário Dias, ambos da equipe de manutenção das máquinas Linotipo,
eram dois exemplo de empregados do Diários Associados que viviam essa difícil
situação.
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| À esquerda Assis Chateaubriand, o dono dos Diários Associados; no centro Mário Dias e à direita Inocêncio Ramblas Filho, dois dos muitos funcionários que ficavam meses sem receber naquela empresa. |
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| Aquino |
Em fevereiro de 1980 havia chegado o
dia de pagamento, uma segunda-feira dia 11. O clima entre os funcionários da Linotipadora Artestilo era de tristeza pois já sabiam que o açougue, a quitanda, o armazém e o aluguel
teriam de esperar alguns dias mais. No mês anterior os patrões haviam atribuído
o atraso no pagamento ao ‘borderô do banco’. Novidade absoluta em termos de justificativa e claro que ninguém entendeu essa
nova e criativa desculpa. Para dar um ar mais trágico ao novo atraso, chegava a
semana de Carnaval e imperava na linotipadora um ambiente de velório. Hora do almoço, o pessoal reunido sussurrando homenagens às mães dos quatro patrões e eis
então que chega, sorridente como sempre, o simpático Aquino. Com seu pandeiro e
um pequeno papel na mão o ‘Vô’ foi dizendo: “Turma, fiz uma marcha para ser
cantada no Carnaval...” Os sorrisos começaram a tomar conta dos rostos de todos
pois sabia-se que Aquino era compositor bastante inspirado. A surpresa foi grande quando o
alegre linotipista anunciou o título de sua marchinha carnavalesca: “A
Marcha do Borderô”. Ouviu-se em uníssono uma estrondosa gargalhada que fez com
que até os patrões colocassem as cabeças para fora do mezzanino onde funcionava
o escritório. Como era hora de almoço os gráficos tinham liberdade até para
cantar e Aquino, acompanhando-se ao pandeiro, mostrou “A Marcha do Borderô”:
Atrasada em seus compromissos
Consequência
da situação ruim
Como
sofre a pequena empresa
Para
os empregados é o fim...
Desesperados
Os
patrões dão um alô – ôô-ôô
O culpado
disso tudo
É
o borderô
Leve
um valinho
Uma
quina, um barão
Dar
tudo agora
Nós
não temos condição
Dar
tudo agora, nós não temos condição...
Desnecessário dizer que “A
Marcha do Borderô” virou um sucesso na Artestilo e durante aquele Carnaval de
1980 não se cantava outra marchinha, a não ser a composta pelo Aquino.
3 de set. de 2014
EM 1970, OS PRIMEIROS AUTOMÓVEIS DE TRÊS LINOTIPISTAS
A indústria automobilística brasileira
começou a produzir veículos no final dos anos 50. Na década seguinte teve
início de forma bastante lenta a popularização da aquisição de automóveis pelos
trabalhadores. Em meados dos anos 60 foram criados consórcios para facilitar e
estimular a aquisição desse bem que era já o maior sonho de consumo de operários
especializados, entre eles os do ramo gráfico. Na Empresa Folha da Manhã, que
editava entre outros jornais a ‘Folha de S. Paulo’, ‘Folha da Tarde’, ‘Última
Hora’, ‘Notícias Populares’ e ‘Gazeta Esportiva’ foram criados grupos de
consórcios administrados pela Mari Auto S.A., revendedora autorizada Volkswagen.
Na assembleia realizada pela Mari Auto S.A. no dia 20 de abril de 1970 com participação dos consorciados dos Grupos 6 e 8,
foram entregues três automóveis Volkswagen. Os consorciados que, com os lances
efetuados, acumularam na ocasião maior número de pontos, sendo contemplados, foram
os gráficos Eduardo José da Fonseca, Moacyr Tang e José Darci Fonseca Lima.
Todos os três concretizando o sonho do primeiro automóvel e, melhor ainda, com um automóvel Zero
Quilômetro. A maior parte dos automóveis entregues pela Mari Auto S.A. eram destinados
justamente para linotipistas e paginadores. Funcionários de outros setores,
especialmente jornalistas, não escondiam uma ponta de inveja por esse fato. Da lista
de 19 consorciados participantes que constam do resumo do Boletim acima
publicado nada menos que 13 dos contemplados eram gráficos. São eles: José Carlos
Melandi, João Marques de Oliveira, Gerson Zainagui, Gerson Coelho da Rocha,
Waldo Barreto (três cotas), João Antônio Marques, Ladislau Cantero Herrada e Alexandre
Pereira Aguiar (Pavão), além dos citados Eduardo José da Fonseca, Moacyr Tang e
José Darci Fonseca Lima.
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| O Boletim expedido para os consorciados após a assembléia de 20/4/1970. |
Na assembleia seguinte, realizada no mês de maio,
foi contemplado, entre outros consorciados, o linotipista Gerson Coelho da
Rocha. E valeu à pena esperar um mês a mais pois a Volkswagen modificou alguns
itens do Fusca 1300, entre eles lanternas e parachoques, dando um visual mais
moderno ao veículo. O modelo Volkswagen 1300, com quase dez mil automóveis produzidos e negociados,
vendia naquele tempo mais unidades que as demais montadoras juntas. Além do
Fusca 1300 foram ainda produzidos em fevereiro de 1970 modelos dos seguintes veículos: Aero-Willys,
Corcel, Itamaraty, Alfa-Romeu, Esplanada, Karmann-Ghia, Galaxie, Opala, Puma e Variant,
conforme demonstra a página da revista 'Quatro Rodas' publicada em maio de 1970.
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| Página do jornal 'O Estado de S. Paulo' de 19/4/1970. |
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| Capa da edição de maio de 1970 da revista 'Quatro Rodas'. |
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| Página da edição de maio de 1970 da revista 'Quatro rodas' com a produção da indústria automobilística brasileira |
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| Nota fiscal expedida pela Mari Auto S.A. referente a veículo entregue pelo consórcio da revendedora Volkswagen. |
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