Lembranças dos tempos em que jornais e revistas eram feitos nas saudosas oficinas tipográficas - Editor: Darci Fonseca

28 de dez de 2015

FRANCISCO CANTERO, O PAQUITO, SINÔNIMO DE LIDERANÇA E COMPETÊNCIA TÉCNICA


Acima uma das ruas principais de Bauru nos
anos 40; abaixo um Jaguar XK-120, com
o ator Anselmo Duarte à esquerda,
passando em frente ao jornal Última Hora
no Vale do Anhangabaú, em São Paulo.
          Nascido em Bauru no ano de 1924, o menino Francisco Cantero recebeu o apelido comum a todo Francisco em Espanhol que é ‘Paquito’. Aos 14 anos Paquito conseguiu emprego como entregador de jornais no “Correio da Noroeste”, jornal bauruense, recebendo em pouco tempo uma promoção que era passar a trabalhar internamente, na tipografia. Ali Paquito conheceu a caixa de tipos mas se sentiu mais atraído pela imponente máquina chamada linotipo, chegando a trabalhar também como redator do “Correio da Noroeste”, sem no entanto abandonar a linotipo. O salário de 100 mil réis mensais não era dos maiores, mas como vivia-se o conflito mundial da II Grande Guerra, não dava para reclamar do emprego. Quando completou 18 anos, Paquito recebeu férias e decidiu tentar a sorte em São Paulo, cidade que oferecia maiores oportunidades. Na capital Paquito conseguiu emprego como linotipista na Gráfica Cruzeiro do Sul com o salário de 500 cruzeiros, cinco vezes mais do que recebia no “Correio da Noroeste”. A Cruzeiro do Sul passou a ter a razão social de Editora do Brasil, ampliando seu parque gráfico. Assim como ocorrera em seu primeiro emprego, na Editora do Brasil, a competência profissional do jovem Francisco Cantero não demorou a ser notada e em um par de anos Paquito passou a chefe de seção e mais tarde assumiu a Direção Industrial da Editora do Brasil.

          O país encontrava-se em ebulição política com a questionada volta, desta vez através do voto, de Getúlio Vargas ao poder. Foi quando foi fundado o jornal “Última Hora”, no Rio de Janeiro, em junho de 1951, com a finalidade de dar suporte político-jornalístico ao presidente que era alvo de ataques, liderados por Carlos Lacerda, por parte de praticamente toda a imprensa da época. O projeto do novo jornal era ter uma edição em cada uma das grandes capitais do país e assim, em 1952, foi criada a “Última Hora” em São Paulo. Para o importante cargo de Diretor Gráfico da “UH” paulistana foi chamado Francisco Cantero que, aos 28 anos de idade, era reconhecido no meio gráfico como um competente gestor. Assim como no aspecto jornalístico a “UH” representou uma revolução no conceito de fazer jornal, a seção gráfica comandada por Paquito fugia dos padrões convencionais e era um exemplo de funcionalidade. Todos aqueles que passaram pela oficina da “UH” localizada no prédio situado no Vale do Anhangabaú sabem que ‘organização’ era a palavra de ordem sob o comando altamente técnico de Francisco Cantero.

Samuel Wainer
          Após o sucesso da implantação e funcionamento da “UH” de São Paulo e cada vez mais reconhecido por seu conhecimento do ramo gráfico-jornalístico, Paquito foi convocado por Samuel Wainer para executar o planejamento e supervisão da criação das “UHs” de Recife (PE) e de Porto Alegre (RS). Francisco Cantero se destacava sobremaneira a ponto de ter atuado numa função especial a serviço de um tribunal do Rio de Janeiro. Foi quando a Justiça guanabarina se viu em dificuldades para avaliar o maquinário da “UH” carioca que deveria ser penhorado para saldar uma dívida referente a um empréstimo feito por Samuel Wainer junto a um banco privado. Francisco Cantero foi convocado pelo Juiz da Vara de Execuções para a complexa tarefa que exigia abalizado conhecimento. O sonho de Samuel Wainer de criar uma rede nacional de jornais se dissipou com o golpe de estado de 31 de março de 1964. Wainer se exilou em Paris, não sem antes deixar um bilhete de próprio punho afirmando que tinha certeza que Álvaro Paes Leme (redator) e Francisco Cantero saberiam conduzir o jornal na rota cheia de incertezas que se avizinhava.

Acima identificação do jogador Pelé, ainda em
Bauru; a revista Pinduca e Paquito.
          Normalmente sério, sisudo mesmo e não muito afeito a brincadeiras, Paquito se descontraía quando participava de uma roda em que o assunto era futebol. Torcedor desde menino do Noroeste Esporte Clube da sua querida Bauru, após a chegada de Pelé ao Santos FC, oriundo do Bauru Atlético Clube, Paquito se encantou com a arte do Rei do Futebol e com a máquina de fazer gols que era o alvinegro praiano. Paquito tornou-se torcedor do Santos FC e sempre que podia ia ao Pacaembu assistir às partidas do seu time do coração, muitas vezes com credencial fornecida pelo amigo Álvaro Paes Leme, redator-chefe da Seção de Esportes do jornal. Respeitado por sua posição como Diretor Gráfico da “UH”, Francisco Cantero era chamado de Paquito pelos diretores, pelos jornalistas e também pelos colegas gráficos. Mal sabia ele que, às escondidas, era chamado por um outro, apropriado e até simpático apelido. Tendo total controle da hierarquia entre seus subordinados, estes algumas vezes (e longe dele) se referiam ao Paquito carinhosamente como ‘Pinduca’, lembrando um famoso personagem das histórias em quadrinhos que, como ele era careca.

          Com os militares no poder a “UH” paulista nunca mais voltou a ser a mesma, tendo sido adquirida pelo Grupo Folhas onde Paquito até chegou, por pouco tempo, a chefiar a gigantesca oficina gráfica do 2.º andar da Rua Barão de Limeira, 425. Não conseguiu, no entanto, implantar a imprescindível organização às oficinas da Folha justamente por não ter recebido a necessária carta branca para eliminar focos que impediam o bom gerenciamento técnico na oficina onde funcionavam 55 linotipos. Paquito era um homem excepcionalmente dinâmico e, paralelamente a seus empregos como diretor gráfico em jornais diversos, criou e dirigiu nos primeiros anos de existência o jornal “Gazeta Penhense”, que passou mais tarde a ser administrado por seu filho Eugênio Cantero. Esse talvez tenha sido o único semanário com oficinas próprias desde a sua fundação em 1964, então sediado na Rua Aurora n.º 51. Atualmente a “Gazeta Penhense” é um dos mais bem estruturados e conceituados órgãos do jornalismo dedicado a bairros paulistanos. Paquito foi durante anos diretor gráfico da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, sendo o responsável pela implantação do sistema de Fotocomposição na Imesp. Mais tarde exerceu a mesma função no “Diário do Comércio”, órgão da Associação Comercial de São Paulo.

Francico Cantero quando já aposentado em
entrevista à TV da Gazeta Penhense.
          Paquito se aposentou no dia 15/11/1982, mas continuou por mais alguns anos como uma espécie de consultor gráfico no “Diário do Comércio”. Uma das características de Paquito era acreditar nos jovens dando a eles, muitas vezes, a primeira oportunidade de trabalho. É incontável o número de gráficos, muitos deles sem a necessária experiência, nos quais Paquito percebeu qualidades e que após curto aprimoramento se tornaram excelentes profissionais. Assim era Francisco Cantero, o incansável e inquieto Paquito, a quem centenas de colegas de trabalho consagram eterna gratidão. Falecido no dia 26 de dezembro de 2015, aos 91 anos de idade, Francisco Cantero deixa uma saudade enorme e admiração ainda maior por parte daqueles que tiveram a oportunidade de trabalhar sob sua liderança.


27 de jul de 2015

ATAIGESP COMPLETA 30 ANOS DE SUA CRIAÇÃO


A Associação dos Trabalhadores Aposentados nas Indústrias Gráficas do Estado de São Paulo - ATAIGESP -  foi fundada no dia 27 de julho de 1985, comemorando, portanto, seu 30.º aniversário no dia de hoje. A edição de n.º 137 do informativo da associação publica uma resenha de todos os principais eventos da ATAIGESP, desde a data da sua criação, sendo lembrados ainda os trabalhadores gráficos que muito lutaram para que a associação se tornasse a realidade que é hoje. A matéria foi escrita por Carlos Alberto Pereira de Castro, o querido Castrinho, que desde aquela primeira reunião é um dos artífices da associação. Presidida atualmente por Roque Barbieri, a ATAIGESP recebe simpaticamente, em sua sede (no próprio Sindicato dos Trabalhadores Gráficos do Estado de São Paulo), todos os gráficos aposentados, seja para esclarecimentos, seja para matar a saudade dos bons tempos.

Nas fotos menores Roque Barbieri, Carlos Alberto Pereira de Castro, José Sacuchi
e Darci Calegari; na foto maior Domingos Medina, Alberto Mezzetti e Castro,
todos batalhadores importantes nos 30 anos de vida da ATAIGESP.

9 de jul de 2015

JALECOS, UMA LEMBRANÇA DOS SAUDOSOS TEMPOS DAS LINOTIPOS



Uma empresa fornecer roupas de trabalho a seus funcionários é atualmente uma obrigação, mas nem sempre foi assim. Em áreas de produção em setores diversos da indústria, no século passado, a roupa de trabalho – jaleco, avental, macacão – era quase sempre responsabilidade do funcionário. Assim como a alimentação, transporte e assistência médica, o trabalhador é quem arcava com os gastos extras com as roupas de trabalho. Com o passar dos anos as empresas foram se organizando e fornecendo esse item indispensável aos seus empregados. De modo geral, dentro do ramo gráfico, linotipistas, ludlowlistas, paginadores e emendadores sujavam-se menos, necessitando, quando muito, um jaleco para proteção da roupa do dia-a-dia. Durante muitos anos os linotipistas trabalhavam usando camisas sociais e alguns não dispensavam sequer a gravata. Já o pessoal da manutenção, formado por mecânicos e limpadores de máquina, estes raramente escapavam de manter calça e camisa próprias para o trabalho, caso contrário não ganhariam o suficiente para substituir as roupas estragadas na oficina. Os macacões eram a melhor solução, mas nem todos gostavam de utilizá-los.

Gráficos do jornal 'A Noite', nos anos 50. Linotipistas, entre eles José Mezzetti,
elegantes em camisas sociais e engravatados.

Funcionário gráficos do Correio Paulistano nos anos 50, vendo-se apenas
um funcionário com um jaleco protetor.

Linotipistas da Folha de S. Paulo em plena
atividade e sem jalecos. Em destaque Carlos
Alberto Pereira de Castro, o Castrinho.
Quem passou por diversos jornais e pelas chamadas ‘casas de obras’ nas décadas de 50, 60, 70 e 80 do século passado certamente observou que algumas empresas eram mais organizadas que outras, preocupando-se com o fornecimento de trajes apropriados para o trabalho a seus funcionários. Assim era a Última Hora que fornecia jalecos cinzas. A Folha de S. Paulo, durante um curto período também forneceu um jaleco verde a cada funcionário, esquecendo-se da necessária reposição que não mais aconteceu. Pequenas linotipadoras como a Godoy não economizavam nesse aspecto que denotava, antes de tudo, organização. A confiança dos clientes aumentava quando observavam a área de produção de linotipadoras mais organizadas com seus funcionários ‘uniformizados’ com jalecos personalizados. Os jalecos protetores era fornecidos pelas empresas sem custo para os funcionários, cabendo a estes cuidar para que esses trajes causassem boa impressão. Mas sempre havia um ou outro que não procedia à lavagem semanal, utilizando o jaleco até que ele ‘se desmanchasse’ de tão sujo.

Visão geral da oficina da Linotipadora Godoy no período em que funcionou na Rua do Lavapés,
observando-se todos os funcionários atuando com seus jalecos. O funcionário que destoa
é Pedro Nepomuceno Duarte, chefe da oficina.


Dentre todas as empresas gráficas de São Paulo, uma se destacava pelo cuidado com os trajes dos funcionários: o jornal O Estado de S. Paulo. Quando o gráfico iniciava suas atividades naquela empresa recebia um jogo com dois jalecos compridos, com mangas igualmente compridas e confecionado em tecido da melhor qualidade. Um ano depois o funcionário recebia outros dois jalecos, havendo muitos casos de linotipistas que chegavam a fazer coleção de jalecos novos. Isso se explica porque a periodicidade de fornecimento era obedecida com rigor e nem sempre em correlação com a necessidade dos profissionais. Algo muito comum era gráficos mudarem de empresa e usarem, por exemplo, o jaleco do jornal O Estado de S. Paulo em linotipadoras e mesmo jornais que não forneciam esse tipo de proteção a seus empregados. Nas fotos que abrem esta postagem podem ser vistos jalecos utilizados por gráficos, dos saudosos tempos das linotipos.
À direita o famoso 'ex-libris' do distintivo dos
jalecos do Estadão.


Setor de linotipia da Empresa Folha da Manhã, nos anos 40 com os
linotipistas mais parecendo redatores com suas alvas camisas sociais.

Linotipia da Imprensa Oficial do Estado, ainda nos tempos da Rua da Glória,
notando-se que nenhum linotipista usava jaleco.

10 de jun de 2015

EDGAR CARNEVALLI, UM LINOTIPISTA FORA-DE-SÉRIE


Acima Roger Vincent Fildimaque;
abaixo José Pereira de Andrade
Sobrinho, o 'Pereirinha' ao lado
de Henrique Alves Neto. 
Alguns linotipistas são lembrados por suas qualidades pessoais, outros por terem sido profissionais acima da média. Edgar Carnevalli é um daqueles que se encaixam nos dois quesitos, destacando-se tanto por seu caráter quanto por sua competência técnica. Trabalhando na Empresa Folha da Manhã em meados dos anos 60, Edgar foi matriculado pela ‘Folha’ na Escola Senai de Artes Gráficas. Durante o curso de Mecanotipista (esse era o nome dado pelo Senai ao aprendizado de linotipo), Edgar já chamava a atenção dos instrutores pela destreza com que executava os exercícios de composição. E não apenas os exercícios de textos corridos, mas também aqueles mais complexos como tabelas e balancetes. Concluídos os três semestres no Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) Edgar Carnevalli voltou à ‘Folha’, permanecendo algum tempo na equipe de manutenção das máquinas à espera de uma oportunidade para se efetivar como linotipista. Naqueles anos a Empresa Folha da Manhã havia se tornado uma verdadeira fábrica de jornais, com diversas redações editando “Folha de S. Paulo”, “Folha da Tarde”, “Notícias Populares”, “Última Hora”, “A Gazeta Esportiva” e ainda “Cidade de Santos”. Com a formação de uma nova turma para finalizar os tantos jornais noite adentro, Edgar Carnevalli, juntamente com outros jovens iniciantes na profissão, foi guindado à condição de linotipista antes mesmo de completar 20 anos de idade. Faziam parte dessa turma de novos operadores de linotipo Roger Vincent Fildimaque, Henrique Alves Neto, Gerson Coelho da Rocha, José Pereira de Andrade Sobrinho, Oswaldo Pecci, Kioshi Ono, Francisco dos Santos, Paulo Canil, Dorival de Almeida e ainda diversos outros jovens.

Jornais compostos e impressos na fábrica de jornais Empresa Folha da Manhã.

Waldo Barretto
Política salarial ilegal - Esperta mas ilegalmente a Empresa Folha da Manhã criou uma política salarial diferenciada para os novos linotipistas, a chamada ‘garotada da noite’. Estes receberiam por algum tempo pouco mais que a metade do que recebiam, pelo mesmo trabalho, os demais linotipistas. O arquiteto desse perverso plano foi o então diretor gráfico Waldo Barretto, respaldado pelo Departamento de Recursos Humanos e, sem dúvida, pela diretoria do Grupo Folhas. Como porta-voz da empresa Waldo Barretto prometeu ao novo grupo que em pouco tempo ‘acertaria’ os salários do novo grupo de linotipistas equiparando-os aos demais profissionais, isonomia que não se concretizou no prazo estipulado. Tal situação que afrontava a Consolidação das Leis Trabalhistas em seus artigos 4.º e 461 não foi aceita por Edgar Carnevalli que, por essa razão, acabou perdendo o emprego, sendo dispensado, mesmo tendo demonstrado sobejamente ser um profissional de grande futuro e utilidade para a empresa. Edgar ficou poucos dias desempregado pois a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo lhe abriu as portas e ganhou um linotipista que logo passou a impressionar chefes e colegas. O sistema de composição salarial na Imesp era o chamado ‘regime de produção’, ou seja, quanto mais o linotipista produzisse maior seria seu salário. A princípio Edgar Carnevalli assombrou a todos com sua produtividade, porém com o passar do tempo deixou de ser novidade o jovem, quieto e compenetrado linotipista liderar o mapa de produção, alternando essa liderança com ‘puxadores de linha’ mais calejados.

Edgar Carnevalli com Aquiles Feliciano
Afonso, outro estupendo linotipista.

Edgar já chegou a ser confundido com o
ator Tony Ramos e a foto explica...
Da Impesp para o DCI - O sistema de fotocomposição aterrorizava a categoria e pouco a pouco todos os grandes jornais adotavam a nova tecnologia. Iniciado o processo de implantação da fotocomposição na Imprensa Oficial do Estado, Edgar Carnevalli foi admitido no Diário Comércio e Indústria, o DCI, situado, assim como a Impesp, no bairro da Moóca. No DCI havia duas turmas de linotipistas, a ‘do dia’ e a turma ‘da noite’, ambas atuando sob o regime de produtividade. O volume de trabalho do período noturno era infinitamente maior e os linotipistas desse turno chegavam a produzir o dobro de linhas da média produzida pelo pequeno grupo que trabalhava durante o dia. No DCI havia verdadeiras ‘feras’, capazes de produzir perto de 150 mil linhas por mês, ou seja, alguma coisa ao redor de cinco mil linhas por jornada de trabalho. Entre os rapidíssimos linotipistas do DCI, líderes do mapa de produção, estavam José Pedro Vedovato, Antônio Cláudio A. do Vale, João Vinchy, Achiles Feliciano Afonso e Luiz Edgard Moro. Com o final do ano iniciava-se o período dos balanços, o que coincidiu com a chegada de Edgar Carnevalli àquele jornal especializado em economia, para reforçar a equipe diurna.

Recordes diários - No primeiro mês de trabalho a produção total de Edgar Carnevalli não chegou a chamar à atenção pois ele não chegara a cumprir integralmente o mês de trabalho, uma vez que começara na empresa em meados do mês. Porém nos 30 dias seguintes, quando o grupo de linotipistas do turno do dia adiantava os balanços que as grandes empresas eram obrigadas a publicar, Edgar Carnevalli mostrou sua impressionante capacidade de produção. Seu total diário de linhas produzidas superava a de muitos linotipistas do período noturno que incrédulos viam nos mapas os números espetaculares de Edgar Carnevalli, números que confirmavam a fama da qual ele veio precedido. Só restava mesmo tirar o chapéu e reconhecer ser Edgar Carnevalli um linotipista diferenciado, completo mesmo pois somava destreza com provas limpas. E não se tratava de composições com algumas dezenas de linhas e sim balanços que ocupavam toda uma página do jornal.

Mapa de produção da equipe de linotipistas do jornal Diário Comércio e Indústria.

Um Fora-de-Série - Tive o prazer e a honra de ser companheiro de trabalho de Edgar Carnevalli na ‘Folha’, no ‘Estadão’, no DCI e, já nos anos 80, no Diário Popular quando este passou a funcionar na Rua Major Quedinho. No ‘Estadão’ eu e Edgar Carnevalli operávamos a mesma linotipo, em turnos diferentes, fazendo centenas de anúncios de coluna e meia. E como dava gosto ver Carnevalli ‘dar rotativa’ em coluna e meia com a mesma facilidade de quem compunha em uma coluna. Por onde passou Carnevalli criou admiração pelo profissional fora de série que foi e pela sua integridade pessoal demonstrada no episódio da lesiva política salarial da ‘Folha’. Hoje, tantos anos distantes das barulhentas oficinas que há décadas deixaram de existir, pode-se afirmar que Edgar Carnevalli fez parte daquele grupo seleto de profissionais chamados de ‘Linotipistas Notáveis’.

Edgar Carnevalli ao lado de Darci Fonseca, Aquiles Feliciano Afonso, Roger Vincent
Fildimaque e Gerson Coelho da Rocha; atrás, de cabeleira branca Sérgio Pizzigatti.

Flagrante feito em encontro de gráficos veteranos organizado pelo 'Grego'
nascido no Egito Roger Vincent Fildimaque.


21 de mar de 2015

DOMINGOS MEDINA, O PELÉ DA LINOTIPO


Conheci Domingos Medina na “Última Hora”, ou melhor, ouvia falar de Domingos Medina, pois ele fazia parte da turma de linotipistas do período noturno e eu era da turma que fazia a 2.ª edição daquele jornal. Eu (Darci Fonseca) trabalhava pela manhã e todos os demais linotipistas desse turno (Altair Martins, Francisco Sanches Matalana, Osmar Praxedes Peres, José Carlos Teodoro, Francisco Sanches Cote e Orovaldo Spoltore), e ainda os mecânicos Miguel Del Gaudio, Inocêncio Ramblas Filho e Manoel Leandro da Silva Filho, além dos paginadores, se referiam a Medina com enorme admiração. Todos ressaltavam a excelência de seu trabalho como operador de linotipo notavelmente rápido. Os quadros de produção do dia anterior apontavam invariavelmente o nome de Medina como o linotipista que mais linhas havia produzido e quase sempre com considerável vantagem sobre os demais profissionais. O regime salarial para os linotipistas na “Última Hora” era misto, com uma parte fixa e mais a produção, o que fazia de Medina o linotipista mais bem pago do jornal. E a equipe do período noturno tinha fantásticos ‘puxadores de linha’ muito rápidos, cujas máquinas praticamente não paravam enquanto o último original não fosse composto, fechando a primeira edição da U.H.

Álvaro Alves, um dos melhores
linotipistas da "Última Hora".
Equipe não homogênea - O ritmo frenético de composição dos originais fazia com que erros fossem inevitáveis, um ou outro por prova. E ‘emendar’ uma prova fazia com que o linotipista perdesse um precioso tempo. Domingos Medina se diferenciava dos demais porque chegava a atravessar uma semana inteira sem ter que corrigir uma única prova. Não sem razão Medina havia se transformado em uma lenda dentro do jornal e quando errava esse fato era até ‘comemorado’ pelos emendadores. Em tom de blague alguns deles diziam que se todos os linotipistas fossem como o ‘Mingo’, eles perderiam o emprego. E nem todos eram e nem poderiam ser, ainda que em outros jornais talvez tivessem o mesmo destaque que Medina possuía na “Última Hora”. Faziam parte da equipe noturna de linotipistas o gaúcho e rapidíssimo Álvaro Alves (geralmente o vice-campeão mensal de produção do jornal), Antônio Farias, Clemente Macchio, Gerson Zainaghi, Mário Grazzini, Ladislau Cantero Herrada, José Floriano Motta, Joaquim Antunes, Oswaldo Adelson Scarabotto, Aldo Moreno, Valentim Rigamont, Antônio Abraão, Léo Lipski, Mário Galvão de França e Dalwin Las Casas. 16 profissionais para as 16 máquinas de linotipo e, como não poderia deixar de ser, nem todos com igual competência.

Francisco Cantero Herrada, o 'Paquito'.
Comparação de provas - Francisco Cantero Herrada, o ‘Paquito’, era o Diretor Gráfico da “Última Hora” e sempre preocupado com a melhoria do rendimento da equipe que comandava, detectou que havia um linotipista que errava em excesso. Nenhuma das provas desse linotipista deixava de ter várias anotações do time de revisores do Conrado, Chefe da Revisão. Havia mesmo algumas provas que continham tantos erros que melhor seria recompor o original, gerando assim uma segunda prova, segunda revisão com perda irrecuperável de tempo para a produção da edição e de dinheiro para o linotipista. Certa noite a paciência de Paquito se esgotou e ele chamou o linotipista até a sua pequena sala envidraçada. Sobre a mesa do Diretor Gráfico havia dois maços de provas: um perfeito e outro que mais parecia um pacote de papéis amassados. No primeiro estavam mais de 20 provas de Domingos Medina, todas da jornada de trabalho anterior e todas limpas; no segundo as provas mais pareciam bordados feitos por mãos inábeis. Paquito ponderou com o linotipista que ele errava demais e que precisava melhorar seu rendimento produzindo provas com menos erros. E mostrou as provas de Medina como exemplo a ser seguido. O linotipista que era bonachão, alto e calvo, não se alterou com a bronca e respondeu ao Diretor Gráfico: “Mas Paquito, o Medina é o Pelé da Linotipo!” Desculpa esfarrapada, sem dúvida, mas que expressava uma inegável verdade pois o que Pelé fazia dentro de campo com arte e objetividade, Domingos Medina fazia todas as noites trabalhando em sua Linotipo Meteoro no jornal “Última Hora”.


1 de dez de 2014

HAMILTON SARAIVA, PROFESSOR DA ESCOLA SENAI, GUARDA-CIVIL E ATOR DE FILMES DE MAZZAROPI


Odetto Guersoni
Quem foi aluno da Escola Senai de Artes Gráficas no final dos anos 50 e início dos anos 60 certamente se lembra dos dois professores de Desenho. Um deles era Odetto Guersoni, gravador, pintor, desenhista, ilustrador e escultor. As obras de Guersoni estão espalhadas por museus e acervos do mundo todo. O outro professor era também bastante eclético, acumulando atividades diversas entre si. Seu nome era Hamilton Saraiva e muitas vezes ministrava suas aulas trajando farda de guarda-civil pois ele era sargento dessa corporação de elite da cidade de São Paulo. Não confundir a antiga Guarda Civil de São Paulo com a atual Guarda Civil Metropolitana criada pelo então prefeito Jânio Quadros nos anos 80. Além dessas duas ocupações – Professor de Desenho da Escola Senai e Guarda-Civil – o Professor Hamilton tinha uma terceira atividade que ele não comentava, mas que era de conhecimento público. Pelo menos para quem assistia aos filmes de Amacio Mazzaropi.

"Chofer de Praça", primeiro dos seis filmes de Mazzaropi em que apareceu
o ator Hamilton Saraiva.

Os filmes de Mazzaropi eram lançados sempre no Cine Art-Palácio, na Avenida São João, com filas enormes para se divertir com o inesquecível caipira do cinema nacional. Foi em 1960, ao assistir “Jeca Tatu” naquele cinema, ao lado de alguns amigos, que surpreso reconheci meu professor Hamilton, escondido atrás de um bigode falso, num pequeno papel de dono de um armazém. Quando o encontrei no Senai ele confirmou que era ele mesmo e a descoberta logo se espalhou pela escola toda, o que em nada alterou o comportamento do Professor Hamilton. Sério, exigente e também paciente com os alunos, ver o Professor Hamilton sorrir era um fato raro. Mas depois da revelação ele sempre esboçava um sorriso de cumplicidade quando encontrava com os alunos. O grande sucesso de “Jeca Tatu”, maior ainda que as formidáveis bilheterias dos filmes anteriores, levou Mazzaropi a realizar um segundo filme em 1960. Outro personagem da cultura popular foi utilizado e o filme foi intitulado “As Aventuras de Pedro Malasartes”. Qualquer aluno do Senai, mesmo aqueles que não tinham aulas com o Professor Hamilton gostavam de contar que seu professor era artista de cinema.

Hamilton Saraiva contracenando com Mazzaropi em "Jeca Tatu". Entre as compras
feitas por Mazzaropi no armazém de Hamilton Saraiva pode ser visto um
frasco do Biotônico Fontoura, fortificante que praticamente todos que foram criança
na primeira metade do século passado um dia tomaram.

No ano seguinte, em 1961, o Professor Hamilton foi visto em “Zé do Periquito” e assistir aos filmes de Mazzaropi tornou-se obrigatório, não só para rir com os tipos criados pelo grande cômico, mas também para ver em cena o Professor Hamilton. Mesmo após haver concluído o curso no Senai os alunos formados em 1961 viram o talentoso professor em “O Vendedor de Linguiça” (1962) e em “Casinha Pequenina” (1963), este filme colorido. Seguiu-se então a decepção com os filmes seguintes de Mazzaropi nos quais não mais estava presente nosso Professor Hamilton. Sabe-se lá porque razão, ele não voltou mais a atuar nas produções da PAM (Produtora Amacio Mazzaropi), infelizmente.

Hamilton Saraiva com um bigode feito a mão em cenas de "Pedro Malasartes".

Os filmes de Mazzaropi nunca saíram de circulação, sendo reprisados constantemente pelos canais Brasil e Cultura, além de terem sido lançados em fitas VHS nos anos 80 e posteriormente em DVD. E cada exibição desses filmes é uma oportunidade para relembrar esse querido professor e por tabela de colegas daqueles memoráveis anos passados na Rua Muniz de Souza número 2, na Escola de Artes Gráficas do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – SENAI. Tempos dos instrutores de Linotipo Alfeu e Adão. Tempos dos professores Jacó, Célio, Zezinho; do diretor Carlos Moneta. Tempos de colegas como Roger Vincent Fildimaque, Edgar Carnevalli, João Simara Marins, José Hamilton Aissum, Décio Fogagnolli, Dilson Mezzetti Costa, Charlô da Cruz Leite, Raul de Marco, Wanderlei Vera Mandelli, Benjamim Fernandes... Melhor parar pois a lista é longa demais.

Bravo como era durante as aulas vemos Hamilton Saraiva
numa cena de "Zé do Periquito".

Novamente fardado vemos Hamilton Saraiva contracenando com Roberto Duval,
Maximira Figueiredo, David Netto, Mazzaropi e Carlos Garcia. Na outra foto
Duval, Garci, Mazzaropi e Hamilton Saraiva. O filme é "O Vendedor de Linguiça".

O primeiro filme em cores de Mazzaropi foi "Casinha pequenina", que teve a
última participação de Hamilton Saraiva em filmes do grande cômico.
O ator que aparece na foto com Hamilton é Luiz Gustavo, famoso protagonista
da novela "Beto Rockfeller" e até hoje atuando na Rede Globo..